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Qualquer sociólogo de araque sabe que os partidos políticos estão esgotados. Que as manifestações tendem a vir, agora, de maneira difusa e caótica. A gente fica olhando pra primavera árabe e pra Londres. E pensando. Será que vai? Será que é isso? E aí tem as marchas no Brasil. Alguns dizem que as Marchas são restritas à classe média. Eu acho que são mais restritas ainda. É uma classe média que faz um uso específico da internet. Eu não consigo usar essas marchas como exemplo em sala de aula, por exemplo. E nem em reunião de família. Porque ninguém sabe do que eu tô falando. Então não são marchas de primavera. Mas apontam para um tipo de politização. Que, me parece, é um dos possíveis. Que é uma politização de fundo emocional mesmo. Tem gente que gosta de TODAS marchas. Que acha que quando as pessoas saem pra marchar, algo acontece. E que mesmo uma marcha oba-oba pode levar a questionamentos mais sérios e à percepção de que as coisas se resolvem com política. Tem aqueles que não gostam de NENHUMA marcha. Consideram que a festa substitui o debate e que os assuntos permanecem sempre na estaca zero. As mobilizações são feitas para atrair um grande número de pessoas então não é possível especificar nenhum assunto nem aprofundá-lo. Dentro do guarda-chuva precisa caber todo mundo. Mas agora exite um novo tipo de crítico. É aquele que critica as marchas se elas forem CONTRA O GOVERNO. Você vai me dizer que sempre existiu esse tipo. Que todo governo sempre teve seus puxa-sacos e que tem um tipo de gente que é meio oficialista mesmo. E eu vou te dizer tá bom. Eu sei. Mas há uma diferença crucial agora. Essas pessoas. Os puxa sacos, pelegos e oficialistas. Bem. Agora eles são meus amigos. Minhas namoradas e amantes. É uma gente que. Sério. É capaz de sair sambando numa marcha Arrasa, Dilma hoje. E escrever teses contra a marcha do Viva os Golfinhos amanhã. Assim. Se o organizador da associação de golfinhos disser que esse governo não tem proposta pra golfinho. Cara. Esse meu pessoal (amigo/amante/namorada). Nossa. Esse pessoal fica puto. E mostra 1) como os golfinhos eram tratados na era FHC. 2) Que a reivindicação é classe média. E que pobre não tem tempo pra golfinho. Que tá comendo lambari e não sei quê. Virou uma coisa mecânica nessas pessoas aí. No meu pessoal. Eu já sei tudo o que vai acontecer. Com qualquer coisa. Porque é a ÚNICA forma de funcionamento que eles tem.

Mas aí aconteceram duas coisas nos últimos dias. E eu acho que vale contar. Porque eu descobri isso também. Que meu distanciamento do blog vem disso. Eu não posso mais falar sobre feminismo, petismo e política. Porque simplesmente vou acabar ofendendo/magoando muita gente. Porque eu considero mesmo que as pessoas estão idiotizadas e batendo bumbo em volta de um partido político que realmente não corresponde.

O primeiro caso foi o do dirigente petista de BH. Que estuprou a entedeada de 9 anos. Ele participou da organização de um evento que eu não sei direito pra que serve. Mas tem o sugestivo e modernoso título de Bloguemus Quae Sera Tamen. O tal evento foi amplamente divulgado na minha timeline. Quando descobriram quem era o cara, a reação de repúdio foi imensa. Mas isso pra mim não resolve o principal. Que é o seguinte. Ficou todo mundo divulgando sem parar um evento que, na verdade, ninguém sabe direito o que é. Quem participa. Pra que serve. Eu vi as pessoas ali servindo ao PT mesmo. Passando verniz de modernoso num PT machista e criminoso. Num partido que se afastou mesmo de qualquer ideal ético. Com o twitter, os líderes agora se aproximam do público. E você não arranca nada desses líderes. Essa aproximação, parece, só serve para iludir mais meus amigos, namoradas e amantes. E eles ficam vomitando informação oficial. E dizendo coisas como "obrigado, senador". Porque o senador falou assim. Estamos apurando e providências serão tomadas. Coisas que a gente nem escuta. A versão oficial é blábláblá. Não pro meu pessoal. O meu pessoal acredita no partido. O tempo inteiro e sem trégua pra reflexão.

O segundo caso foi da Comissão da Verdade. Que foi aprovada ontem. Sério. Várias pessoas na minha timeline afirmaram estar CHORANDO nesse momento tão significante. Outras mandavam beijos para os argentinos. E diziam que nós também íamos buscar a nossa verdade. E enquanto isso. Alguns tontos e bons lá no Buzz mandavam uns links. Do grupo Tortura Nunca Mais dizendo que é melhor NÃO ter comissão nenhuma do que essa que ia ser aprovada. A Erundina e o Safatle (?) esperneando. Reportagens explicando que nosso prazo na OEA tava expirando. Na minha timeline, porém, a balada era bem outra. Euforia. Conquista. Braços dados indo avante. O meu pessoal não bobeia. E começa a falar que maravilha uma presidente torturada falar na onu e aprovar comissão da verdade. Assim. Tudo junto e misturado.

Aí eu páro tudo mesmo. E escolho esse momento para sair do armário. E avisar pro meu pessoal:

 

Eu não tô gostando do governo Dilma.


Embora adore a figura dela. Eu gosto da Dilma Roussef. Mas acho que o governo dela está sendo uma lástima. Os melhores momentos TODOS são relativos à faxina que ela fez. Não, eu não me incomodo com o termo. Acredito mesmo que é uma grande chance que ela tem. De retomar a bandeira da ética. Para que no futuro, petistas não tenham que se opor à marcha da corrupção. Mas ainda é pouco para eu gostar de um governo. O voto mais difícil que eu dei pra presidente foi pro Lula em 2006. Na Dilma eu votei bem fácil. Eu sabia o tamanho da encrenca que era essa aliança dela. Mas não quis pensar muito no assunto. Pois bem. Não tô gostando MESMO.

O caso é que fica parecendo que meus amigos/namoradas/amantes mudaram demais. Eles costumavam ser mais inteligentes que o blogprog e o PT somados. E agora viraram meninos e meninas de recados, me parece. Mas pode ser que eu que tenha mudado. E que eu tenha virado uma direitoba que não percebe os rumos revolucionários desse governo. Tudo pode ser. Vamos acompanhar.

 

Ontem os alunos de jornalismo me apresentaram um trabalho. Basicamente eles tinham que escolher um projeto em tramitação na Câmara dos Vereadores e conversar com um vereador a favor do projeto. Um vereador contra o projeto. E analisar se o posicionamento tinha algum alinhamento partidário. Eles adoraram fazer isso. E coisas bem engraçadas aconteceram. Porque eu tenho alunos que moram em cidades muito pequenas e tal. Daí teve vereador que não quis atender e mentiu dizendo que tava viajando. E a aluna encontrou com ele no posto de gasolina. Dois alunos tiveram que esperar o advogado dos vereadoes chegar. Porque eles só falariam na presença de. Uma outra contou que o presidente da Câmara da cidade dela disse que a Câmara tinha vários projetos mas só conseguiu mostrar um (sobre mudança de nome de rua). E eu já sabia que vinha engraçado DEMAIS o negócio. Porque os alunos me contavam nos corredores. Então eu fiquei com medo da aula descambar prum deboche total da política. E levei um texto super curto, pra gente ler em conjunto depois da apresentação. É um texto dando dados e discutindo o voto nulo. Num esquema Nulo: sim ou não?. E não deu outra. Foi super debochada a aula. E coisas muito legais apareceram. Um dos garotos que teve que "enfrentar" o advogado encenou e ele é todo gay e sarcástico. E disse que fez cara de quem sabia mais coisas e ficava rabiscando no bloquinho pra eles pensarem que eram anotações. E a sala curtindo um monte. E a aluna do projeto do nome da rua conseguiu falar com o único vereador que não é exatamente contrário ao projeto mas considera perda de tempo debater isso. E ficou ótimo o trabalho da aluna. Que ela acabou falando com profundidade disso aí e eu curto demais quando alguém tira leite de pedra. Um monte de história boa. Ah. Uma aluna fez uma coisa GENIAL. Ela entrevistou uma ex-vereadora e ex-prefeita a respeito da reforma da praça que aconteceu aqui há uns anos. E foi um dos projetos mais polêmicos da história da cidade. E ela fez esse resgate aí. Uma entrevista imensa que ela nem soube editar direito, tadinha. O caso é que no final tava todo mundo debochando. O garoto do advogado confessando que por isso odiava política e que tinha votado no Tiririca. E então lemos o texto, com as informações. A gente lia as informações e falava sobre elas. A sala é pequena. São 16 alunos. Aí tava lá no textinho: 30% dos brasileiros não sabem o nome do governador, 20% não sabem dizer o presidente. E eu perguntei quem era presidente do Brasil. E todo mundo sabia. E aí eu perguntei quem era o governador do estado. Eu tenho, nessa sala, 5 alunos que moram em Minas Gerais. Lembrando que eu moro na fronteira entre os dois estados. Daí um paulista não sabia dizer que era o Alckimin. E dois mineiros não sabiam dizer que era Anastasia. E eu tenho um aluno baiano também. Ele tá morando aqui desde o ano passado, veio pra trabalhar na usina de cana mas é obrigado pela mulher a fazer faculdade à noite. E eu ele respondeu, meio baixo, que era o Alckimin. E eu perguntei pra brincar com ele. E o governador da Bahia? Você sabe?. Os outros alunos adoram que se fale da baianidade dele. Ele adora a bainidade dele. Ontem mesmo uma aluna disse que estava um cheiro diferente na sala e ele estava entrando e respondeu "é cheiro de macho baiano". Uma coisa assim. E eu perguntei quem era o governador da Bahia. E ele respondeu, me explicando. Professora, o governador da Bahia morreu.

*Os outros alunos começaram a rir. Deixa de ser burro, quando morre o governador o vice assume etc. E ele riu também. E falou é verdade, é verdade. E eu achei melhor não falar nada. Porque eu senti um nó na minha garganta. E se eu falasse alguma coisa, já sabe. Eu acabar chorando ali. E ele podia achar que eu também sou órfã do ACM.