Minha mãe mantém o mesmo jardineiro há anos. Tipo uns 10 anos. Ou mais. Ele é um negão. Que já deve ter sido todo fortão. Hoje é só meio gordo. Ele é meio novo também. Tipo mais novo que eu. Mas é super rodado. Já casou um monte de vezes etc. Ele fala pelo cotovelo e eu acabo sabendo tudo da vida dele pela minha mãe. Inclusive que a atual esposa, enfim, é uma moça responsável e que agora o jardineiro vai endireitar e tal. Ele tá meio vivendo as maravilhas da era Lula. Comprando carro e mudando de casa etc. Ele e minha mãe são amigos. Daí hoje ele apareceu aqui de manhã. Mas não era sobre jardim que ele queria falar. Ele queria perguntar se minha mãe podia ser fiadora da casa que ele tá alugando. Não, ela não pode. Ninguém no mundo tem o nome mais sujo que a minha mãe. Por causa dos rolos do meu pai ainda. Mas aí eles ficaram conversando no jardim e arrumando soluções. E o jardim da minha casa dá pra rua. A minha mãe é aquele tipo sabe? Que acaba acreditando em racismo, mas no fundo acha que não existe, o que existe são as pessoas etc. E ela ficou com o jardineiro quase meia hora. Ela meio que curte resolver a vida dele porque considera que ele já foi muito mulherengo etc. Teme recaída. Aí passou um carro em frente de casa. Bem devagarzinho. Um cara e uma mulher. E eles olharam fixamente pra minha mãe. Ela ficou meio assustada e comentou com o jardineiro. Ele, de costas, não viu. Ok. Segue a vida e a pobremática toda do fiador. E o carro passa de novo. E aí minha mãe fica realmente com medo. Ela estava se despedindo do jardineiro já. E ele perguntou se ela queria que ele fizesse alguma coisa. Ela recusou e disse que ia entrar e trancar a porta. Se o carro passasse de novo, ela chamaria a polícia. Entrou. O telefone tocando sem parar em casa. Ela atende. A vizinha. Disse que um outro vizinho tinha visto minha mãe na porta com um tipo estranho e que estavam todos preocupados. O coração da minha mãe ficou do tamanho duma ameixa. Eu percebi, quando ela me contou. Cê brigou, mãe?, eu quis saber. Não brigou. Só disse se ele fosse loiro não seria estranho, né Maria Luiza? Maria Luiza é a vizinha. E ela concordou com a minha mãe. E deixou claro que ela nem ficou preocupada. Preocupados estavam os outros que ligaram pra ela etc. Eu nem sei quem é esse casal, minha mãe falou. E aí foi dito onde eles moram e tal. Eu não sei também quem são eles. Porque eu nunca fico em frente de casa e nunca vejo nenhum vizinho sequer. Só o seu Jaime. Mas é porque ele PUXA assunto comigo. Quando eu tô saindo da garagem. Eu DENTRO do carro. E ele puxa assunto. Anyway. Fiquei conversando um tempo com a minha mãe sobre isso. Porque dava pra notar a angústia dela. E sociologia resolve angústia, eu acho. Nós acabamos concordando que a história toda tem uma vibe mega retrô. Coisas dos anos 60 isso, ela disse. Eu concordei. E eu até achei mesmo. Super subúrbio americano o lance. E em 2011 continua a acontecer, ela emendou. Eu concordei de novo. E aí eu quase falei. É porque ainda existe racismo, mãe. Mas nem falei. Porque, né? Essas coisas funcionam melhor quando a gente percebe sozinha.